Aquela era uma fria noite de inverno. A lua cheia, parcialmente encoberta pelas nuvens, iluminava as escuras ruas da cidadela. Como era comum nessa época do ano os becos eram encobertos por uma espessa neblina acinzentada. Eu acabara de acordar assustada, por ter tido um sonho ruim. Havia tido pesadelos com vampiros. No sonho eles pareciam inocentes, suas feições eram amigáveis. Até que mostravam suas imensas e assustadoras presas ao mesmo tempo em que curvavam suas sobrancelhas, formando uma espécie de “v”acima de seus olhos. Logo após isso, um deles, o de cabelos longos e negros, me atacara. No mesmo instante em que eu acordei horrorizada. Assim que acordei, olhei aos meus arredores e percebi, apesar da pouca iluminação, que ainda estava na taverna. Deduzi que, por isso, me sentia zonza e um pouco entorpecida. Apesar de não me lembrar, acredito que tenha bebido muito vinho horas atrás. Apesar de estarmos no meio da noite. Havia ainda algumas pessoas freqüentando o lugar. Dessas pessoas, alguns ainda falavam e riam alto, provavelmente sob o efeito do álcool. Enquanto outros estavam dormindo debruçados em suas mesas e com suas canecas caídas perto de seus pés, derramando o pouco liquido que ainda restava dentro delas. Ao longe, sentado de frente para balcão, podia ver um homem me encarando. Sua barba grisalha estava mal feita e seu semblante era o de alguém com poucos amigos. O cabelo prateado na altura dos ombros era descuidado e seboso. Os olhos fundos e avermelhados, como os de quem já havia bebido além da conta, olhavam fixamente para dentro dos meus. Sua camisa branca de malha, estava suja de terra e seu casaco de lã marrom tinham alguns rasgos no ombro esquerdo. Em seu cinto de couro, algo que me chamara demais a atenção e me deixara amedrontada, um enorme facão de aço, todo sujo de sangue. Provavelmente era um caçador e havia vindo de uma caçada há poucas horas atrás. Aquele homem não parava de olhar em minha direção. Ele ficava ali me fitando, quase imóvel. Sua caneca de cerveja ainda estava cheia. Provavelmente ele nem encostara nela desde que sentou naquele balcão. Porque diabos alguém pegaria uma bebida e não a tomaria? Porque ele me olhara daquela forma? Perguntas borbulhavam em minha cabeça. A única certeza que tinha é que aquela parecia ser uma longa e péssima noite. Primeiro, acordara no meio da noite debruçada em uma mesa, sem saber ao certo o que havia acontecido anteriormente. Depois, o terrível pesadelo e agora, esse homem estranho me olhando. Mesmo a cidade sendo perigosa na calada da noite, decidi que era melhor seguir para minha casa o mais rápido possível. Nessa hora da noite, as ruas eram quase desertas, com a exceção de mendigos e criminosos que perambulavam à procura de uma oportunidade de extorquir moedas e cometer atrocidades de toda sorte. Procurei o taverneiro para que pudesse pagar o que havia consumido antes de cair no sono. Mas o velho dissera que eu nada devia à ele. E antes que eu perguntasse quem havia pago, ele virou as costas e adentrou na porta que ficava atrás do balcão e ainda pude ouvir o barulho da fechadura sendo trancada do lado de dentro. Tentei chamá-lo, mas não obtive resposta alguma. Conformei-me com a situação. Já que ele não queria receber e eu nem ao menos lembrava o que ou quanto tinha bebido, economizar algumas moedas não seria de todo mal. Atravessei a taverna e fui em direção à porta de saída. O chão todo sujo, havia todo tipo de bebida derramada ali. No caminho reparei, que o homem ainda me olhava com ar de repúdio e não só ele, todos que ainda estava acordados, me fitavam como seu eu devesse alguma coisa à eles. Apertei o passo e saí da taverna o mais rápido que consegui. Lá fora o vento soprava com força o ar gelado daquela época do ano. As mãos chegavam a tremular de tanto frio. As ruas estavam bastante escuras, não havia muitas lamparinas ou tochas iluminando o local e a essa hora as janelas das casas já estavam todas fechadas, impedindo que saísse alguma luz de dentro delas. Apesar da escuridão, não me senti confiante em roubar umas das tochas que ficavam ao lado da porta da taverna. Não queria me tornar nenhuma espécie de ladra. A casa onde morava não ficava muito longe dali. Mesmo assim, caminhava afobada. Queria chegar logo. Os passos curtos, porém rápidos. Os braços cruzados no peito, para tentar diminuir o frio, ao mesmo tempo em que segurava o vestido com as pontas dos dedos, na tentativa de impedir que sua barra arrastasse no chão. Depois de afastar-me poucos metros da taverna, escutei uma porta batendo. Olhei para trás na mesma hora. A neblina encobria minha visão. Mas tive a impressão de ter visto alguém em frente a velha taverna. Tentei apertar os passos, mas por causa do frio, o ar era rarefeito e não conseguia andar muito rápido, sem que perdesse o fôlego. Decidi que o melhor era continuar andando um pouco mais devagar. Mas continuar. Parar para recuperar o ar, estava fora de cogitação. Enquanto andava ia fazendo orações em minha cabeça. “Pai nosso que estás no céu...” Comecei a ter a impressão de ouvir passos atrás de mim. Os passos eram pesados. “Livrai-nos de todo mal... Livrai-nos de todo mal...”. Começava a ficar cada vez mais assustada. Podia ouvir a respiração ofegante e perceber a claridade vinda da tocha da pessoa que parecia me seguir. Eu tinha medo de olhar para trás novamente. Sentia medo do que poderia ver. Podia ser qualquer um. Mas levando em consideração que era madrugada, com certeza, coisa boa não era. Desesperada e tentando me livrar daquele que estava em meu encalço. Virei em uma rua estreita e cercada pelos altos muros das moradias ao redor. Essa rua era ainda mais escura que as outras, na esperança de que ele não me visse por causa da névoa e seguisse em linha reta, deixando-me escapar. Antes mesmo de perceber que minha tentativa de fuga havia sido em vão. Já havia me arrependido da manobra. Poucos metros à frente, podia ver um mendigo sentado no chão encostado no muro. Ele não tinha uma feição muito boa e usava roupas velhas e rasgadas. Ao seu lado, um chapéu empoeirado com algumas poucas moedas dentro. E ao lado do chapéu, um homem caído, aparentemente desacordado. Não sabia se estava dormindo ou estava morto. Mas pela forma desconfortável com que estava deitado, a segunda opção parecia mais certa. Chegar nessa conclusão, me fez sentir um calafrio na espinha. Sem saber ao certo se devia continuar seguindo em frente e ter que passar próxima ao mendigo ou se tentava voltar atrás. Hesitei por um segundo. E logo vi a claridade do fogo de uma tocha dobrando a esquina.
Escrito por Carlos Eduardo Garrido às 18h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|